domingo, 29 de novembro de 2009

Descer


A essa altura você já deve saber que o amor é uma grande chave e a vida se espalha entre as coisas mais difíceis, mesmo correndo por fora das nossas vontades. Sim, é verdade, nossas virtudes são um vento inútil diante da vida e sei que já é tempo para que saiba de coisas que doem, coisas com as quais você discorda e treme de pavor, mas que não obedecem nunca ao apelo da nossa covardia diante da realidade. Interessa saber que, diante da morte, nós participamos de tudo e sempre ela nos compromete por vizinha leal, jaula vigiada por todos os cantos pelos olhos profundos de uma coisa que somente aprendeu a nos querer com toda a força, toda a vontade liberada de uma essência sem forma e sem conflitos. Você é o único desejo e libertação daquilo a que se destina a tua vida. É tempo de aprender sozinho.

Essa voz está enfraquecendo todos os dias porque começa a aquecer no espírito uma grande admiração pelo eco e sinto que, das memórias que vivi, da vida que corri como um louco, encontrei o ponto onde a raiz não pode mais forçar a descida. Tenho chamado a esse ponto de inferno e, sempre que alguém me acusou de tolo por querer penetrar cada vez mais e mais esse lugar, eu respondi com o silêncio dos que procuram e não sabem ainda a verdadeira música do sangue, o frio que solta para dentro de nós quando encaramos o abismo porque é preciso muita ignorância, muita calma e ignorância para aprender o juízo terreno que a vida faz de nós. Hoje eu tenho a calma dos que amam suas mães.

Você já deve saber de muita coisa que ainda não descobriu o nome que tem. Já deve saber o amor e o tempo, a angústia e a inveja; já deve saber o desejo da carne e os olhos dos que desprezam, a mente dos que se vingam e a morte. Você já deve saber porque duvida, seus olhos derramam a agonia dos que ainda não aprenderam a palavra certa e às vezes te consome o desespero dos loucos sem respostas porque você advinha tudo sem palavras. Eu vejo tanta coisa nos teus olhos que me parece ouvir o seu coração bebendo aos poucos a minha solidão. Tenho medo que você descubra minha dor porque os seus olhos veem tudo sem palavras e a falta de argumentos é sempre um passo muito largo em direção a outra alma.

Quero que você me abrace e que abrace minha saudade para onde você quiser se soltar, mas que isso não te espete a liberdade. Desejo que você carregue consigo a minha forma de dizer as coisas e que seja completamente diferente de mim. Quero que não tenha donos e não seja dono de ninguém, mas não posso te pedir coisa alguma porque amo isso que você é e a ferida dos pedidos é sempre um tormento, sempre um muro de desprezo daqueles que não sabem decerto que o amor não é exigência, mas consegue tudo que o nutre por doação de si mesmo. Espero que já saiba que a indiferença, assim como o ódio e a vilania são possibilidades como a ternura e a gentileza; que saiba que não somos uma linha seguindo em frente, mas uma espiral que um dia se pôs em rumo de interminável caminho porque não conhecemos a morte como um depois e porque amadurece dentro de nós a sua destreza e a sua luta pelo nosso corpo.

Você me permitiu desdobrar a vida como um pássaro e foi assim que aprendi o teu sonho de voar. Com o mistério pairando sempre entre as nossas conversas eu senti que teu rumo me guiava, que era forçado a relembrar antigas histórias e velhos navegantes, homens cujas vidas se apresentavam enormes porque estavam sempre consumidos de tristezas e desgraças. Você sempre foi o príncipe dos mortos e entrevistava a todas as figuras que tive de inventar para o seu deleite de pessoa crescendo. Tenho todas as respostas inventadas e sei que hoje você já não desconfia tanto do que não acredita ser verdade; tenho na palma das mãos o teu consórcio com as coisas da invenção, da mágica, e sei que te agrada aquilo que nunca apresentou a referência das provas. Você tem orgulho das palavras que criou para dizer o que sentia e eu tive medo de você crescer muito.

E você cresceu. Desdenhou da ordem e dos limites, quis o voo, o desfiladeiro e a largura brava do mar porque seu tamanho era uma rocha profunda dentro do coração comum dos homens e eu soube que a tua mágoa crescia, que você se preparava parar sumir, aquietar-se na distração das pessoas transparentes e você nunca poderá entender o tamanho da minha doença quando tudo o que eu temia se tornara um tumor dentro da minha cabeça. Você com suas asas subia e eu sangrava o desespero dos que se perguntam pela veracidade das coisas suando frio. Eu vi o seu rosto mudar de expressão e me culpei. Hoje você deve saber que a culpa é só uma conseqüência de ser livre e, apesar disso, ter consciência. Não havia nada em seus gestos que não fosse uma cicatriz e um grito. Então eu chorei por você e senti que não precisava mais de mim. Conquistara a ambigüidade e era aquilo que eu sempre procurei te dar na minha imagem: um ser superior.

Hoje você deve saber que estas são as palavras de um homem morto e, consequentemente, sabe que fui um homem fraco. Sabe que não se pode construir uma vida inteira com medo de ser o que se é e, sobretudo, com medo de ser superado. Hoje eu não tenho escolha, nem Narciso nem Casmurro, nem Cristo nem ninguém; hoje eu sei que não posso mais aprender coisa nenhuma e que deixei nos seus olhos a marca da minha passagem. Por isso me desculpo. Hoje eu vou tocar a semente da tua raiz naquele inferno que não sei.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Momentos


Recolhidos os pés e a cara fria,

um homem brotará de si pequeno.
Brotará como larva de poesia
e transformando tudo em cada aceno.

Eu continuava triste e sem os braços,
tonto de ver no tamanho do mundo
o movimento frágil dos calados
e o tatear secreto dos profundos.

Quando a Terra preparou aquele corpo
era como se fosse quase nada,
era como se fosse um bicho morto.

Mas quando ele viu a cor desesperada
e tanto mar, tanta água e ainda o porto,
transformou aquela imagem em sua casa.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Contato

Há quanto tempo não recebo tua benção, a vazia sensação de que está correndo os dedos pelo meu rosto insensível, áspero, parado e definhando nas partículas de tempo que morrem e voltam, morrem e voltam... Palavra, nenhuma sensatez dentro desta sala, nenhuma opinião ou bebida que me dê conforto e a fumaça se esconde por trás da malícia, do desejo e da indiscutível responsabilidade de dizer o que eu penso do teu corpo, teu rosto, vestido voando pela janela dos meus olhos. Esta é a saudade de não te conhecer, saber teu nome profundo e possuir, enorme, a tua imensa solidão de pessoa desconfortável dentro de si.

Eu sei, e para sempre será esse descompasso das tuas ancas, pérola em serpente, rosto de pobre como um lírio perfumado. Esta imagem é mais forte que um homem. Eu vou soltar a poesia do teu contato em um balão que vai subir, subir e, até que não alcance o ponto de queimar inteiramente, será teimoso como a vida que se assusta, reflexo de atropelado que se salva, raiz profunda dessas alturas inesquecíveis. Eu me apaixonei no ponto zero em que te vi e este é o grande perigo, o ponto em que sossega a vista e a figura recortada ganha espaço maior no que eu sou. Tenho medo que se transforme em mim, na coisa pequena que eu sou e que tenho construído durante anos e anos e que desgosto, e assume as posições mais impertinentes, e revela o cinismo dos ignorantes e a raiva dos ciumentos perdidos. Tenho medo que perca a sua forma de ver, seu medo de acabar de repente e fique apenas com a minha segurança inútil de homem enganado. Tenho muito medo que se dê a mim e fique só a minha presença dispensável.

É preciso, para que tudo aconteça, que me sussurre o teu nome calmamente, que não esqueça de que sempre é preciso retornar ao espelho, recuperar tua vaidade de mulher e renovar os teus perfumes. Sim, é importante que teu cheiro continue visitando este vento agradecido desde a ponta do meu nariz até o topo de qualquer coisa que não seja mais eu; alguma coisa além da vista que me forma, que me argumenta e que seja mais e cada vez mais a tua voz o que me chama a descobrir o que eu sou porque ando perdido atrás de ti como um pastor; cego pastor a confiar naquela ovelha que perdeu. É preciso descobrir o teu abismo e a tua fome para que eu me entregue de um salto e numa noite, para que eu suba no teu corpo como um bicho, como pluma oferecida para os deuses do acaso, para que eu me encontre em ti.